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A cena bizarra oferecida ao povo pelo aparato de segurança do Estado do Rio é deprimente. Além de corrupção generalizada, de violência excessiva, de ineficiência estrutural, temos agora as milícias!
Organização criminosa de agentes do Estado, propõe-se inicialmente como solução na retirada do tráfico e passa em seguida a controlar as comunidades periféricas, promovendo ampla extorsão em troca de “proteção”. Lembra a máfia clássica sem o glamour do cinema e com a cara da decadência do Estado do Rio. É sem dúvida uma crise de grandes proporções, com inúmeros envolvidos na ALERJ, com sólido retorno financeiro e com uma infra-estrutura de impressionar.
A atmosfera de opressão e medo que assola os moradores da Zona Sul da capital fluminense é sentida e vivida há anos nas comunidades periféricas, que foram abandonadas pelo poder público, sendo invadidas pelo crime e tendo se tornado vítimas constantes da matança policial.
O que precisamos é de ações de inteligência, regidas pelo princípio da eficiência e não contaminadas pelas fortes emoções geradas pelas mais bárbaras atrocidades. O Estado não pode se portar como um vingador cego, que a cada choque se torna mais insensível aos problemas do povo e mais próximo das reações fáceis do endurecimento penal.
Endurecer penas, prolongá-las, reduzir a idade penal é a conversão dos ganhos constitucionais e leis subjacentes em letra morta e conservadora.
O Estado deve ocupar as comunidades com esporte, saúde, educação e com geração de perspectiva de dias melhores para nossa juventude.
As milícias são inaceitáveis e precisam implacavelmente ser combatidas, antes que busquemos na Colômbia não só medidas de combate ao crime, mas também a modalidade muito conhecida por lá de paramilitares e da institucionalização da barbárie.
Na política, com o tempo, vamos perdendo a capacidade de nos surpreender com determinadas movimentações. Vendo o noticiário da TV Câmara, deparamo-nos com a seguinte notícia: deputado Leandro Sampaio assume a coordenação da Frente Parlamentar Contra o Aborto. Seria cômico se não fosse trágico!
Por vezes nós comunistas petropolitanos já demonstramos nossas diferenças com esta figura, tanto nos compromissos programáticos quanto nos valores éticos. Somos de fato diferentes.
A Frente Parlamentar Contra o Aborto reúne desde a parcela mais obscurantista do criacionismo contemporâneo até oportunistas de primeira hora, por seu apelo eleitoral na camada mais moralista e conservadora de nossa sociedade. A Frente tem como norte o slogan “Em defesa da vida”, e aí sem dúvida começam suas contradições.
Não nos bateremos por voltar ao debate bioético, pois temos no Brasil os termos limitantes para esta discussão intrínsecos na lei. É considerado morto aquele que tiver a falência completa das atividades cerebrais, sendo por extensão o início da vida o princípio de tais atividades.
O que queremos é estabelecer inicialmente o que convém chamarmos da contradição em termos do slogan da Frente, ou seja, demonstrando que é preciso aprofundarmos a discussão em busca de que vida tal Frente diz defender no cotidiano, na realidade concreta.
Se for verdade que há vidas em jogo quando falamos de aborto, é preciso então fazermos um apanhado anterior. É fato: mulheres brasileiras fazem aborto clandestinamente. Essa realidade se não for explicada pode trazer mais escuridão do que luz, pois por si só, não comporta a complexidade do fato.
O aborto praticado nas clínicas clandestinas move milhões de reais, tem como clientes as classes dominantes e as camadas médias, realiza-se com a blindagem de parlamentares (e aqui aparecem os lobos em pele de cordeiros) e carregam a legitimação de uma sociedade que faz fingindo que não vê. Comporta ainda a marca da exclusão, pois fazer aborto seguro em clínicas de luxo é muito caro; isso significa que uma massa gigantesca de mulheres que opta cotidianamente pela interrupação da gravidez fica à mercê de “curandeiros” e “rezadeiras”, dos Citotecs vendidos em camelô e dos “açougues” (clínicas clandestinas de péssima qualidade).
Estamos falando que uma parcela das mulheres brasileira tem o direito de fato a uma interrupação da gravidez segura e assistida, e uma parcela das mulheres brasileiras, a maioria, as pobres, não. Sem falar das que, não tendo acesso nem mesmo a essas absurdas alternativas citadas anteriormente, tentam realizar o aborto sozinhas, na maioria das vezes se mutilando, e em alguns casos chegando à morte. Pela primeira vez perguntamos: Frente em defesa da vida de quem?
Na nossa opinião, cabe a defesa da vida de uma parcela importante das mulheres deste país, que devem ter o direito de fazer o aborto com a segurança proporcionada pelo estado, como política pública de saúde.
Se nós que defendemos a descriminalização do aborto somos chamados de assassinos, o que serão aqueles que fecham os olhos para essa tragédia das mulheres pobres deste país? Assumimos de peito aberto: Somos pela descriminalização do aborto, defendemos a vida das mulheres pobres deste país!
Quanto ao Leandro, esse ardoroso defensor da vida, é a cara desta Frente! O atraso anda mesmo de mão dada.
